Por que o quadrinho nacional não dá certo? Ah, não agüento mais ouvir essa pergunta, repetida, ecoando eternamente. As respostas são as mais criativas e embasadas possíveis. Todas tem uma parcela enorme de acerto. Faltam bons escritores, faltam bons desenhistas, faltam bons arte-finalistas, faltam editoras e por aí vão as teorias. Eu já deixei claro em outras ocasiões que não acredito que a culpa seja do mercado e sim de quem está produzindo. Se faltam os profissionais acima mencionados, estude e seja você mesmo todos eles, e se nenhuma editora se interessar, seja você mesmo ou a internet a editora. Existem apenas as barreiras que nós mesmos criamos.
Mas seguindo adiante, quero falar sobre projetos. Vejo muitos por aí. Dizem que esse é o ano do quadrinho nacional. Não sei porque só esse ano e não antes. Pessoas se juntam, alguém escreve, alguém desenha e as vezes tem alguém pra finalizar e até alguém pra colorir. Olhando de longe, parece que tem tudo pra dar certo. Mesmo que sejam todos ruins, algo deve sair daí, certo? Uma obra completa de algumas ou muitas páginas! Mas porque então 90% desses projetos morrem na praia? O roteiro é razoável, o desenhista também faz um trabalho aceitável, todos se dão bem, mas mesmo assim algo dá errado e o projeto começa a se desmanchar. Cada um vai pra um lado e não se fala mais no assunto. Vejam só, digo isso porque já vivi essa situação mais de uma vez.
O fator que observo é a falta de comprometimento. Vamos analisar o invejado mercado americano. Por que sai tanta coisa por lá (é só olhar o catálogo www.westfieldcompany.com), mesmo que a maioria delas sejam muito ruins? Não é a quantidade de editoras, pois a maioria nem existe de verdade, são criações dos próprios autores. Também não é o poder monetário, porque se você comprar algumas dessas coisas, vai ver que o xérox daqui dá show. PORRA, então o que é?

É que se lá alguém se compromete a fazer sua parte em um projeto, ele leva isso adiante até o final, independente de levar vários anos e saber que nenhum dinheiro vai rolar. Isso é o que molda um profissional. Isso é o que faz uma pessoa ter um nome respeitado. Não pular fora no meio da viagem. Agora, o que eu não consigo explicar é, por que isso acontece tanto por aqui? Não consigo entender. Deve ser algo que está de alguma forma arraigado a nossa herança cultural, sei lá. Pensem comigo. Empreendedorismo nunca foi o forte por aqui. Vamos aceitar esse fato. Temos uma mentalidade derrotista. Digo isso generalizando é claro. Temos nossas exceções, felizmente. Não vou citar porque não é pra isso que estou escrevendo esse texto. Quero que vocês reflitam sobre isso. Quero que vocês entendam que devem levar a sério um projeto quando entram, pra que ele realmente se concretize. Mesmo que você considere que todos os envolvidos são péssimos, faça a sua parte. E faça o seu melhor. Isso é ser profissional. Desenhar um pin-up perfeito qualquer um faz. Desenhar uma HQ leva tempo e exige comprometimento.
Em 1996 morreu, na Itália, o desenhista Roberto Raviola, mais conhecido como Magnus. Magnus era perfeccionista e levava dias desenhando uma única página repleta de detalhes minuciosos. Uma das ultimas obras primas de Magnus foi com o ícone Italiano Tex. Uma aventura de 224 páginas que tomou 7 anos de sua vida para ser concluída. Até aí nada de mais se não tivesse sido mesmo no extremo da enfermidade que o matava lentamente que Magnus se debruçou sobre folhas de papel para, sentindo talvez a morte que se aproximava, terminar essa gigante obra-prima com a qual tinha se comprometido ao amigo Bonelli. E mesmo quando não tinha mais forças, um de seus assistentes favoritos, sentava-se a seu lado e finalizava essas páginas seguindo as indicações do mestre. Isso é mais que comprometimento, porque um homem normal nessas condições jamais faria isso. Isso apenas um mestre faz. A nós cabe aprender. E ter um décimo dessa decência. De minha parte, aprendi a dizer não quando sinto que não vou poder cumprir algum compromisso dentro de uma data estipulada, e a me comprometer em entregar tudo aquilo que aceito fazer. Posso demorar meses pra fazer algumas páginas, mas faço nelas o meu melhor, nada menos.Abraços.
Jackson Gebien
Jackson Gebien
0 comentários:
Postar um comentário