Este texto poderá conter spoilers, informações ainda não publicadas no país
Zapeando por aí, me deparei com um texto interessante, no Universo HQ, sobre a
má péssima fase que a DC está vivendo nos EUA. O texto é este
aqui.
Na verdade, estas críticas, agora feitas por alguém que esteve lá dentro, nada mais são do que a cereja nesse bolo de fracassos que a DC têm se tornado.
Nos últimos anos, ninguém, seja do primeiro ou do último escalão de personagens na DC, está seguro. Crises patéticas, reformulações pífias, infundadas e desnecessárias colocam na mente dos leitores (e críticos) uma só pergunta: "
o que está acontecendo com o lar dos maiores ícones dos comics?¹"
Vamos por partes, e estas partes começam na primeira "crise" deste século, que foi
Crise de Identidade. Antes dela, tanto DC quanto a Marvel estavam vivendo fases medianas: nada de espetacular (ou muito pouco, como o Demolidor de Bendis ou a Liga da Justiça de Morrisson), tampouco, nada de execrável. Brad Metlzer pegou o que a DC tinha de mais insignificante (Sue Dibny e o patético Dr Luz? Quem esperaria algo de bom deles?) e transformou numa trama boa, muito boa, capaz de dar sustos e tirar o folêgo de muito DCnauta das antigas por aí (ainda que tenha terminado num final meia boa, e aberto caminhos bem difíceis de serem trilhados, mas... vamos em frente).
Ao descer das cortinas da Crise de Identidade, vimos o começo do fim, e ele veio em forma de
Contagem Regressiva para a Crise Infinita. Eu assumo, bons companheiros: eu ainda não entendo qual a ligação entre CdI e a Contagem Regressiva, mas as respectivas editoras (DC e a Panini) trataram nas como ligadas, então ligadas são. Ted Kord descobre que está sendo roubado, corre atrás, se depara com o já esquecido Xeque-mate de Maxwell Lord e... Termina com uma bala na cabeça (qual a razão da perseguição à Liga de Giffen? Ralph e Sue Dibny, Lord como vilão, Besouro morto...). Seguiu-se a verdadeira Contagem Regressiva, que trouxe boas idéias sub-aproveitadas (Vilões Unidos), idéias medianas com um aproveitamento acima da média (Dias de Vingança e Projeto OMAC) e idéias ruins com aproveitamento idem (Guerra Rann-Thanagar).
Feito isto, desembocamos na
Crise Infinita. Alardeada como a seqüência direta de Crise nas Infinitas Terras, CI mostrava a dor e a revolta dos heróis que sacrificaram tudo em nome do multiverso unificado e agora viam os heróis da Terra trilharem o caminho torpe. E aqui a coisa fica feia de verdade. Alguns personagens têm aspectos fundamentais de suas personalidades ignoradas, motes são repetidos, gente morre a toa e a sensação final é a de dinheiro jogado fora, mas vamos com calma...
Para começar, a Mulher Maravilha. Numa situação limite, ao vivo para todas as Tv's do mundo, a princesa das amazonas quebra o pescoço de Maxwell Lord, a única forma de livrar o Superman de um nefasto controle mental incutido pelo vilão. A decisão de Diana, totalmente contrária aos princípios adotados por Superman e Batman, rompe a longa amizade da Trindade. Oras! Quem pode afirmar estar surpreso com a atitude da heroína? Diana é a rainha das Amazonas. Vejamos, amazonas, na lenda grega, são mulheres guerreiras. Guerreiros matam. Na guerra morre gente! Parece simples, e realmente é! Apesar de que você pode discordar dizendo que as amazonas dos quadrinhos são diferentes. Pois bem, sinto mas não são. Numa HQ do Superman publicada por aqui ainda pela Abril, na linha Premium, Clark e Diana vão para a terra dos deuses nórdicos combaterem ao lado do deus do trovão, Thor, que precisava de ajuda contra uns demônios. Lá, o casal acaba passando mais de 100 anos em duras batalhas. Aos inimigos de Diana, o destino é simples: morte em combate. Como Clark não mata, as tropas de Thor sempre o tratam como o "escudeiro" de Diana. Como guerreira, Diana está disposta a matar. Tudo indica que o Batman também, já que carrega consigo uma munição forjada de kriptonita, para os casos do Superman perder o controle. Bem, ele estava fora de controle. Entre matar o maior herói do mundo ou aquele que o controlava, Diana escolheu a segunda opção. Era guerra.
Chegamos na parte dos motes repetidos. Se me permitem, faço um retorno na linha cronológica que tratei aqui, até a Contagem Regressiva. Nela descobrimos que Max Lord tomou o controle do Irmão Olho, o satélite espião criado pelo Morcego para vigiar e, em caso de necessidade, neutralizar os meta-humanos do mundo. Oras, mas a idéia é bem batida! Numa edição premium do Superman, vimos uma HQ da LJA chamada "Torre de Babel". Nela, alguns planos do Batman sobre como neutralizar a Liga caem nas mãos de Ras Al'Ghul e a Liga tomba frente ao cabeça do Demônio! Antes disso, em Liga da Justiça Ano Um, Mark Waid os aliens Apellaxianos derrotam todos, todos os heróis da Terra ao fazerem uso de arquivos criados por... Jo'nn Jo'zz, o Ajáx!
Inclusive, Mark Waid deveria contar como argumentista de CI, já que outra idéia usada por ele anteriormente foi também "homenageada": os heróis mártires (Superman da Terra 2, Superboy Prime, Alexander Luthor e Lois Lane da Terra 2) se revoltam porque os heróis da Terra se afastam, cada vez mais, do ideal heróico, se corrompendo (Hal Jordan), matando inimigos (Mulher Maravilha), sendo negligentes (Superman) e traidores (a LJ de Zatanna e Gavião Negro) [
Aqui há um ponto bem engraçado: o Superma Kal-L, teoricamente, é o Super original, criado por Siegel e Shuster. Oras... Esse Superman matava! Inclusive por omissão, largando inimigos em aviões em queda, por exemplo...]
Onde encontra-se a idéia copiada de Waid? Essa rusga entre os heróis de hoje e os de ontem é o grande pano de fundo de um dos maiores clássicos da DC: Reino do Amanhã! São as falhas de caráter de Magog e Cia que atuam para que Superman, exilado, traga de volta outros heróis igualmente exilados...
Por fim, chegamos à parte mais fácil de se criticar em Crise Infinita: as mortes totalmente desnecessárias. Inúmeros Titãs foram mortos ou aleijados, Jade, Shayera Hall, Superboy... A lista é grande e um tanto quanto injustificável (além da velha máxima de que sangue se derrama numa guerra).
No final, algo que provavelmente fez arrepiarem os cabelos de Mark Wolffman e George Pérez: a volta do multiverso...
Mas isso fica para a parte II desta matéria!
¹
Que me desculpem os Marvelmaníacos, mas a DC é uma editora muito mais icônica do que a Marvel. Peça a qualquer leigo (entendendo leigo como alguém que não lê HQ's) para dizer três componentes da Liga da Justiça. Mude o foco e peça para ele indicar três membros dos Vingadores. Você provavelmente vai ouvir um sonoro "Três membros de quem?". Superman, Batman e Robin, Mulher Maravilha são simplesmente as evocações mais fáceis, basicamente as representações sociais do que vem a ser um super herói.
Com algum esforço a Marvel consegue fazer vistas ao grande público com Cap América, Hulk e Homem Aranha...