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terça-feira, 17 de junho de 2008

[Fale-me mais sobre isso:] RPG, parte IV

Pois então, chegamos à última parte da “matéria” sobre o RPG. Esta parte, particularmente triste, não era meu desejo inicial que existisse, escrevo-a com o intuito de atender ao sempre bacana Rafael Tavares, que me pediu-a já na parte I. Assim, trato agora do nefasto envolvendo o RPG: as mortes "ligadas" ao jogo.

Esteja atento que as aspas não são puro efeito decorativo: o RPG é tão responsável por mortes como o filme "Clube da Luta".

De repente você está se perguntando como eu posso afirmar tal coisa com tamanha convicção. Eu entendo a sua pergunta e digo, meu caro: poucos estiveram tão envolvidos com um desses casos de morte "ligada" ao RPG como eu...

O ano era 2001.
Eu trabalhava ainda no meu primeiro emprego com carteira assinada, uma loja de calçados, de dia. Na parte da noite, concluia o segundo grau. À época, internet banda larga era coisa que saber que existia eu sabia, só não conhecia ninguém que tinha. Como só podia me conectar depois da meia-noite ou nos fins de semana, me conectava em grupos de discussão por e-mail aos montes. Através de um destes, conheci um grupo de RPGistas tão bem intencionados como curiosos: advogados, pós-graduados em Letras, estudantes de colégios particulares bastante caros, micro-empresários. Todos interessados numa proposta nova para o RPG, montar um grupo municipal do jogo, com o objetivo de divulgar o hobby e trocar informações entre os membros. Eu não tive dúvida alguma em aceitar tomar parte do projeto. A idéia era boa, as pessoas pareciam bacanas e, depois de algum tempo, marcamos uma reunião: uma terça-feira, acredito que 23 de outubro, na maior Comic Shop de Belo Horizonte, a Leitura Savassi. Eu contava os dias. Mas era quinta-feira ainda (dia 18) quando tudo se deu. Saí do trabalho sabe-se lá porque e passei na banca de jornais. A manchete do jornal me acertou como um soco, apesar de ocupar pouco espaço na capa do informativo diário. De boca aberta comprei o jornal. Já com ela fechada, mudo, jornal na bolsa de office-boy, entrei na loja e sentei no estoque, bem escondido, para ler a matéria. Se engana quem pensa que me escondi para evitar reprimendas por ler durante o expediente: o fiz sim para evitar sermão, não sabão: dos empregados (os patrões inclusos) da loja, eu era o único que não era evangélico. E, infelizmente, a opinião dos evangélicos sobre o RPG é bastante conhecida (aqui também)... Enfim, a notícia me fez engolir em seco. Depois da aula, quando pude me conectar naquela carroça que se chamava (à época) de internet, vi nos e-mails desesperados que a sensação era comum. Manteve-se a reunião de terça-feira, que agora não objetivava mais tornar real o que antes se estabelecera por virtual; do contrário, a reunião era mais pra que, na caça as bruxas que se anunciava, pudessemos conhecer os aliados e mais, para juntos, montarmos frentes de resistência. Vinha lá mau tempo.

...

Na terça-feira, jornal na mochila, subi as escadas da Leitura meio tenso. Avalie a tensão normal de alguém muito tímido quando vai conhecer gente nova e, some a ela a propiciada pela situação: eu era uma pilha.
O segundo andar da loja é onde ficava (e ainda fica) os materiais de cultura pop: HQ's, livros de RPG, ficção e fantasia, miniaturas e esculturas, camisetas de rock e super heróis, fantasias. Era noite já, faltavam talvez duas horas no máximo pra loja se fechar, e o segundo andar estava abarrotado de pessoas: era um conclave.
No meio de tanta gente diferente, com piercings, camisetas de heróis, cabelos chocantemente vermelhos, eu destoava, tímido, camisa pólo e jeans. Mas a equipe da Tv Globo, presente como urubus, destoava mais.

...

Corta. É maio de 2005. Eu estou dormindo num alojamento contíguo à Delegacia Regional de Ouro Preto. Na beliche ao meu lado, Douglas, um escrivão recém-formado. São quase duas da manhã quando uma luz muito forte entra pelo basculante da janela e me deixa semi-acordado. Alguém dá pancadas fortes na porta: "Ô polícia! Levanta aí!" Acordo assustado, estou no chão num pulo, mas desarmado (um novato, recém-formado!). Douglas está se vestindo, chamaram-no pelo nome. Uma chave gira na porta por fora e eu reconheço a voz do homem enorme usando máscara tipo ninja: é o Artur, espécie de faz tudo na delegacia, ainda que não fosse (oficialmente) policial. Manda eu me vestir: acabaram de chegar, em diligência, com um acusado de assassinato preso no Espírito Santo. Meio zonzo, de sono e de susto, saio do alojamento já vestido: o holofote da câmera da Tv Globo me ofusca os olhos.

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Volta a 2001. No conclave, a repórter da Globo entrevista o coordenador do projeto, um advogado recém-formado cujo nome não sou capaz de lembrar. Ele fala sobre os benefícios do RPG como ferramenta de socialização e catalisador do hábito de leitura, por exemplo. Encerra sua fala com palavras similares a estas: "O RPG influencia? Sim! Mas tanto quanto um filme pode influenciar, uma música, uma peça de teatro, um livro, uma revista em quadrinhos. Uma pessoa que já seja perturbada corre riscos quando exposta a qualquer uma dessas coisas."

A repórter lhe agradeceu e deu as costas, indo entrevistar a única mulher presente: uma moça na casa dos vinte e poucos, muito branca, meio gordinha, de cabelos vermelhos e piercing no nariz. A moça nem era do projeto, veio acompanhar um amigo e, por conta da situação de acusação que viu, resolveu peitar. Era pós-graduanda em Letras e estava trabalhando numa pesquisa justamente sobre as vantagens pedagógicas do RPG. Trazia nas mãos um livro carioca sobre uma experiência educativa que relacionou, de forma bem sucedida, o RPG e o ensino de História. Terminaram a entrevista, e alguém presente questiona a tendenciosidade da mídia. O câmera (ou seria o assistente?) retruca dizendo que a mídia vinha se comportando de forma idônea, sem ter acusado em nenhum momento o RPG da morte de Aline Soares Silveira. Não sei exatamente por qual razão, tiro o jornal da mochila e mostro pra equipe de reportagem. Pergunto se aquilo não é acusar. O câmera (ou) assistente, supostamente encurralado, desdenha: "Isso aí é o Estado de Minas. (aponta o emblema no bolso da camise) Vê aqui? Rede Globo. Não tem nada a ver." Eles dizem que a matéria irá ao ar no Jornal da Globo, aquele de meia-noite. Quando a equipe da Tv sái de cena, começa a reunião propriamente dita. Pela internet já havia sido noticiado que o grupo (ainda sem nome direito) já conseguira acertar algumas palestras em importantes escolas particulares e renomadas de Belo Horizonte. Com a morte da moça, tudo revogado. A Leitura cogitava impor condições à venda de RPG's e card games. A estrutura do grupo, que vinha sendo elaborada, já precisava de reformulação: despede-se, por exemplo, a idéia que eu adorava de distribuir os membros seguindo os graus de cavalaria/nobreza medievais: cavaleiros, duques, viscondes, barões... Achavam que dava um ar de sociedade secreta (desejado no início, execrável àquela altura do campeonato). Por fim, ainda que alguns membros (eu incluso) tenham saído para tomar uma cerveja e se conhecerem, a sensação era amarga: a idéia tinha morrido no berço. Já em casa, liguei a Tv a tempo de ver o Jornal da Globo. As entrevistas, onde eu estive presente, estavam completamente alteradas. A fala do jovem advogado era uma colcha de retalho onde só se ouvia: "O RPG pode influenciar alguém? Sim!". ... É Ouro Preto de novo, 2005. São duas da manhã, faz muito frio. Douglas entrou junto do então delegado regional de Ouro Preto, Dr. Adauto, e com ele foi ouvir o preso recém chegado. Minha função é fazer guarda na porta, impedindo que os repórteres abusem. Engraçado que é deles que eu fico sabendo do que se trata. Preso lá dentro, dando depoimento, um dos acusados de matar Aline Soares Silveira, quase quatro anos atrás, que fora pêgo curtindo a vida de fugitivo no Espírito Santo. Quando ele sai, posso reparar bem no caminho que o arrasto, algemado, até a viatura: é de altura mediana, rechonchudo, pouco mais velho que eu, veste uma camiseta regata alaranjada e amarela. É pedante. Se porta como nobre. Mas está preso. Assim como uma garota, implicada no mesmo crime. Eu tenho raiva. Lembro de tudo, das calúnias da imprensa, dos questionamentos na escola, no trabalho, da preocupação tímida da minha mãe que, apesar de tudo, sempre soube o filho que criou e que me apoiou frente aos outros. Lembrei das minhas Dragão Brasil dentro da mochila, no alojamento. Queria entrar na cabeça do sujeito e saber a verdade. Mas só ele entrou. Entrou no camburão, rumo à cadeia pública. Pouco tempo depois ele conseguiu ser solto, junto com a garota. Mas eu não estava mais lá para ser acordado de madrugada. Àquela altura já havia sido transferido de volta para Belo Horizonte, para a equipe de plantão da Divisão de Crimes Contra a Vida. O lugar exato pra saber como a investigação do caso, ainda em Ouro Preto, fora mal feita. Como os laudos da perícia foram sub-aproveitados e como parecia haver um interesse em fazer do caso uma polêmica e um fato isolado perpetrado por malucos envolvidos num jogo satânico: oras, a Festa do Doze, quando Aline foi morta, arrastava 40 mil turistas para Ouro Preto todos os anos...

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Já na época eu sabia que tudo não passava de balela. À morte de Aline juntou-se um triplo latrocínio em Guarapari, também creditado ao RPG. Oras, eu sabia, nenhum daqueles crimes tinha uma relação verdadeira com o RPG, assim como Clube da Luta nada tinha de relacionado com o maluco da metralhadora no shopping, ou como "O Apanhador no Campo de Centeio" não podia ser responsabilizado pela morte de John Lennon. É claro, eu mais do que ninguém sou capaz de reconhecer que um psicótico que tenha contato como jogo pode cometer atos hediondos se dizendo influenciado. Mas perceba, estou falando de alguém psicologicamente doente, capaz de fazer mal a alguém e dizer que Deus mandou. É culpa de Deus? No caso de Ouro Preto o que se viu foi um oportunismo barato de um político, um delegado não muito competente e da imprensa, ávidos em fazer da moça uma nova e cândida Daniela Perez mineira. Inclusive, sobre a inocência do RPG nesses casos, acrescento um excelente texto do Marcelo Del-Debbio editor e sócio da editora Daemon. Oras, a título de conclusão, retomo a idéia que coloquei láááá na parte I da matéria: RPG é um jogo de faz de conta, sem vencedores ou perdedores. Perde quem não se diverte. Assim como são todas, praticamente todas as brincadeiras fantásticas das crianças. Em brincadeiras de bang-bang, quantos índios foram mortos, ou se quer se machucaram gravemente por balas que pegaram de raspão? Quantos ladrões do polícia e ladrão? Quantas meninas entraram precocemente na vida sexual brincando de papai e mamãe? Nenhum. Por que com o RPG seria diferente?
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Abaixo, o recorte de jornal, extraído do Estado de Minas, do dia da descoberta do caso Aline:
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