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05/08/2008

Entrevista Continuum: Michelle Ramos - Parte 2

Olá amigos do Projeto Continuum. Estamos de volta com nossa querida sessão de entrevistas, retornando com a segunda parte de nossa conversa com a autora do Zine Brasil, Michelle Ramos.

Michelle esteve um pouco afastada do mundo virtual devido a uma pane em seu computador, por isso é que demoramos tanto para vincular essa segunda parte da entrevista. Mas agora que os problemas foram sanados, ela está de volta e com todo o gás. Reformulou recentemente o portal Zine Brasil, que agora passou a ter um Blog povoado constantemente com boas novidades sobre os quadrinhos brasileiros.


Michelle Ramos e sua coleção

Blog Continuum: Nesses anos que vem se dedicando aos quadrinhos nacionais, o que você vem notando de diferente? Conquistamos mais aspectos positivos ou negativos?

Michelle Ramos: Em termos gerais, creio que conquistamos muitos pontos positivos, quando iniciei o trabalho de divulgação com o Zine Brasil, a divulgação não era tão forte (na internet) pelo contrario, era até certo ponto muito fechada. A maioria dos sites não procurava abrir grandes espaços para o quadrinho independente, era sempre uma coisa “fantástica” sair em alguns deles, já hoje todo lançamento nacional é extremamente divulgado e apoiado, creio que daqui pra frente precisamos alcançar as grandes mídias como o jornal (não apenas com uma pagina, mas com matérias inteiras) e a TV; com esse tipo de incentivo, o apoio financeiro será algo mais palpável.


Charge de Bira Dantas

BC: A culpa é nossa ou deles, nos referindo agora aos nossos governantes e editoras nacionais, para o cenário dos quadrinhos no Brasil estar como o conhecemos?

Michelle: Os dois são culpados, nós por nossa falta de profissionalismo, e pelo conformismo em não tentar criar algo realmente novo, e deles, por não apenas faltarem com o apoio financeiro, ainda negam o incentivo importantíssimo da divulgação. Quadrinhos independentes na TV, geralmente só é divulgando quando tem relação com mangá, que por mais que eu goste, fico triste quando não vejo essa mesma dedicação com personagens que retratam o nosso dia a dia, a nossa cultura e a nossa forma brasileira de criar diferentes personagens.

HQ do Brasileiro, por Ed Pontes

BC: Em sua opinião a internet promoveu uma nova era para os quadrinhos nacionais, ou as suas vantagens limitam-se as conquistas que tivemos até aqui?

Michelle: A única limitação na internet é a financeira, afinal quem acessa ta acostumada a ler de graça; e a maioria dos leitores não quer pagar para ler na frente do computador; tanto que a maioria dos criadores de quadrinhos que utilizam a internet com regularidade para publicar quadrinhos, não tem grana para investir no impresso. A internet é, e por muito tempo ainda será a melhor forma de divulgar seu trabalho, com uma qualidade superior a do papel; qualidade essa que só existe em poucas revistas independentes impressas (falo de cores, diagramação e etc.); O Escritor deseja com todas as forças ter seu trabalho nas mãos publicado, mas na falta de investimento, a internet ainda é a melhor opção.



BC: Por ser mulher num universo dominado pelos homens, como é o caso dos quadrinhos, você já sofreu algum tipo de preconceito? O que pensa sobre esse assunto?

Michelle: Pior que já sofri sim, mas nada exagerado, mas aquele comentário “ Tú gosta é? Vixe, é a primeira menina que conheço que gosta e ainda divulga HQ” e quando eu vou comentar o assunto que dois caras estão conversando, dependendo de quem são, esperam eu dizer alguma besteira (risos), mas não ligo, isso também acontece (de forma mais rara) quando eu começo a falar de futebol! (risos).


Michelle e Roko Loko

BC: Fale-nos um pouco do panorama dos quadrinhos em Pernambuco!

Michelle: Costumo dizer que poderia estar bem melhor se os artistas de nosso Estado fossem mais unidos; se pudéssemos ter mais eventos de quadrinhos, e ainda se a grana ajudasse, mas creio que temos bons exemplos de qualidade atuando no mercado, como Mascaro, Laílson de Holanda, João Lin e tantos outros, sem falar dos que estão surgindo atualmente, como Leonardo Santana, Assis Leite, Sandro Marcelo; entre vários outros que por falta de tempo e grana, deixaram os quadrinhos de lado por algum tempo que espero que seja curto; nosso Estado carece de mais eventos nesta área, algo que movimente, que mostre o quadrinho Pernambucano de forma mais forte, e dessa forma, poderemos mostrar o quadrinho brasileiro de forma geral.

Brasileiro, personagem de Michelle Ramos

BC: Fale-nos um pouco de sua experiência na tentativa em editar uma publicação independente! Que obstáculos fizeram você retardar essa sua empreitada para um momento posterior?

Michelle: Infelizmente os obstáculos foram inúmeros, mas no topo da lista esta a falta de dinheiro para investir no quadrinho; depois surgem aqueles artistas que não embarcam com você no mesmo espírito e ai os problemas aumentam; mas cada obstáculo foi bom e proveitoso para mim, pois em cada um deles eu aprendi a trabalhar melhor e planejar com mais cuidado a forma e o momento para lançar algo; a Revista Nacional esta mais viva que nunca em minha cabeça, e em meu computador; só preciso esperar o momento certo chegar e meter a mão na massa.


BC: Como você percebe os personagens dos quadrinhos nacionais? Com identidade própria ou seus criadores carecem de maior amadurecimento na hora de jogarem ao mundo suas criações?

Michelle: Com certeza muitos personagens nacionais possuem uma identidade própria e são verdadeiras pérolas para mim, porém creio firmemente que todo projeto antes de ser lançado deve ser estudado, amadurecido; isso eu aprendi com os obstáculos que passei no lançamento que terminei por adiar da Nacional; mas creio que se aplica a tudo que fazemos, e nesse caso com personagens de quadrinhos.

Página do Capitão Alfa

Por mais que gostemos de super-heróis; devemos sempre nos lembrar que moramos no Brasil, um lugar onde quadrinhos não é valorizado; então ao escrever não podemos esquecer de como os brasileiros pensam, de como eles vivem e se comportam, essa atitude com certeza vai melhorar e muito a construção dos personagens atuais.

Página de Indócil, diagramada por Michelle


BC: Do seu ponto de vista, percebe muita concorrência entre os artistas nacionais? Existe espaço para amizade e confiança no meio quadrinístico?

Michelle: Com certeza existe espaço para amizade e confiança em todos os lugares, as pessoas é que parecem não querer isso em algumas situações. Infelizmente existe certa concorrência absurda no meio sim, mas geralmente por pessoas imaturas e invejosas das quais não vale à pena perder tempo falando. Um bom exemplo de união de quadrinhistas esta na idéia do 4º Mundo, do qual também faço parte. Ninguém vive sempre se beijando, mas quando se aprende o que é ser profissional e compromissado com seu amigo de fanzine, as coisas seguem em frente e dão frutos com certeza. Infelizmente alguns artistas ainda não aprenderam essa lição.

Coleção de quadrinhos brasileiros

BC: Como roteirista, que tipo de histórias ainda gostaria de ter oportunidade de contar? Que tipo de inovação busca enxertar em suas histórias?

Michelle: Ainda estou no inicio de minha “carreira” de escritora, e espero ter a oportunidade de mostrar muitas idéias e projetos ainda, mas desejo acima de tudo um dia escrever algo que mude a vida das pessoas pra melhor, algo que não seja apenas para diversão, mas que seja como uma grande e valiosa dica para o restante da humanidade; quem sabe?


BC: O que podemos esperar de Michelle Ramos e do Zine Brasil para a continuidade deste ano e pros próximos?

Michelle: Podem esperar a perseverança, a busca pela sabedoria e amadurecimento, pois se depender de mim e da forma que penso nesse momento, eu espero estar junto com Zine Brasil divulgando e contando muitas histórias ainda.

5 comentários:

Rodrigo Chaves disse...

Grande Michelle Ramos. Que continues fazendo esse excepcional trabalho que já fazes.
Quanto as entrevistas, acho que esqueceram de falar uma coisa, quando estão falando do problema das HQ estrangeiras tirarem espaço das nacionais, que é a questão do custo. Comprar uma história americana ou japonesa famosa é muito mais barato, além de ter um retorno muito mais garantido do que pagar alguém aqui para fazer uma nova. Não é uma questão de má vontade, é uma questão de negócios mesmo.
abraços

Anita Costa Prado disse...

A Michelle, batalhadora e persistente, é um exemplo a ser seguido.
Em poucos anos de atuação, já fez muito pelo quadrinho nacional!
É uma pessoa admirável e essa entrevista mostra clareza, inteligência e perseverança.

CHARLES IVAN disse...

Parabéns pelo grande barato que vc faz pelo quadrinho nacional, fica aqui minha eterna admiração e gratidão , muito boa a entrevista .

wanderline freitas disse...

MARAVILHA DE ENTREVISTA MICHELLE
E CONCORDO C VC QDO DISSE Q FALTA PROFISSIONALISMO E Q OS ARTISTAS SAO CONFORMADOS (E SO SE REUNEM P DISCURTIR BANALIDADES, QUEREM Q AS COISAS CAIA DO CEU E DO CEU SO CAI AVIAO)AINDA BEM Q TEMOS PESSOAS Q ACREDITAM E FAZEM NOSSO QUADRINHO
VOCE E TB UMA HEROINA.

Verônica S. de Souza Saiki (Very) disse...

Parabéns Michelle pela entrevista! Os pontos que mais gostei de ler foi que mesmo com a internet como meio de divulgação o sonho do quadrinista é ter seu trabalho impresso! Isso é realmente uma grande verdade, pois é como se na net ainda fosse só um mero sonho mas em mãos, é real!
E as mulheres nos quadrinhos e o espanto das pessoas (homens maior parte). Afinal acham que lugar de mulher é aonde? rs

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