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20/08/2008

[Eu li]: Turma da Mônica Jovem (números 00 e 01)


Não faz muito tempo, nem coisa de muitos meses, eu li no Judão uma matéria, para dizer o mínimo, curiosa: a de que Maurício de Sousa, ele mesmo, o grande quadrinhista brasileiro, iria lançar uma proposta inusitada: pegaria seus principais personagens, as crianças da Turma da Mônica e as transformaria em adolescentes. Mais do que isso, transformá-las-ia em adolescentes e contaria suas histórias em estilo mangá.

Em mim, como em muitos outros leitores, a proposta despertou três sentimentos diferentes, ainda que relacionados: surpresa, medo e muito receio. Oras, a turminha funciona tão bem como crianças em idade pré-escolar há tanto tempo! Para quê amadurecê-las agora, sem mais nem porque, e ainda por cima “niponizando” o estilo tão brasileiro do Maurício?

Bem, vamos por partes: apesar de brasileiro, o traço tradicional do Maurício sempre teve muitas influências do mangá. E muito disso se dá pelo fato de que Maurício e Osamu Tezuka, que é considerado um dos maiores mangakás (escritor/desenhista de mangá) foram grandes amigos. O que está se passando agora deixa de ser influência (que é o que era antes) para virar adesão: não é mais o mangá sendo antropofagizado pelo estilo Maurício de Sousa, mas o contrário. O estilo gráfico agora é um mangá com pitadas de MSP (Maurício de Sousa Produções, chefia!). E isso nos leva a uma pergunta muito importante, e que aparentemente nem o Tio Maurício nem os artistas do MSP se dedicaram a responder: o que faz um mangá? Ou melhor: o que uma história em quadrinhos precisa ter para ser considerada um mangá genuíno? Alguns mais radicais hão de responder que, para ser um mangá, uma HQ precisa ser feita no Japão, por um japonês e, de preferência, escrita em ideogramas. Outros, muito mais permissivos, apontam que basta que os personagens tenham cabelos malucos, olhos grandes e boca pequena, além de uma ou outra “licença gráfica”, como os momentos super deformeds e congêneres. Na introdução da revista “Como desenvolver roteiro para mangá”, da editora Canaã, Alexandre Nagado diz o seguinte:


As pessoas costumam associar o mangá (quadrinho japonês) a figuras de olhos grandes, cabelos espetados e coloridos, robôs, samurais e monstros. Tudo isso realmente faz parte do universo do mangá, mas não é o que melhor traduz o que é o mangá. O que mencionei agora tem a ver com uma escola de artes visuais, inserida no gosto médio da maior parte do povo que consome e faz mangá. São estereótipos visuais, padrões estéticos, nada mais que isso. Mas o que muita gente deixa escapar ao folhear um mangá é uma coisa sutil, que foi arduamente pesquisada pelo pioneiro do moderno mangá Osamu Tezuka e aperfeiçoada ao longo dos anos por talentosos artistas.

Trata-se da narrativa, aquilo que liga um quadrinho ao outro e dá ao leitor o entendimento da história no ritmo e no tempo pretendido pelo autor.¹


Sei que a citação é bastante longa, mas a fiz porque, se não fosse pelo intervalo temporal (a revista do Nagado não traz informações acerca do ano de publicação, mas eu a tenho já há um bom tempo, coisa de quatro anos pelo menos) eu diria que o que Alexandre faz é escrever uma crítica direta ao produto que o MSP colocou nas bancas. Sobretudo no que tange à edição #01 de Turma da Mônica Jovem: olhos grandes, cabelos espetados, robôs, samurais e monstros. Sim! Tem tudo isso no gibi da Mônica e o resultado passa longe de ser bom. Isto dito, passo agora à resenha propriamente dita.

Se da arte eu já comentei, cabe citar o roteiro de Turma da Mônica Jovem #01. Em uma palavra? Péssimo. Além de ser pueril demais a uma revista que se pretende voltada aos adolescentes, ele é mal escrito mesmo. Primeiro, passa a impressão de que a turminha cresceu... de um dia para o outro! Ok, isso aconteceu para nós, leitores, mas dentro do universo ficcional da Turma, presumo que as coisas de deram de maneira normal, um ano após o outro. Daí, a contextualização que o roteiro se esforça em fazer do que mudou é forçadíssima e incômoda. Melhor solução (ainda que não plenamente satisfatória) foi tomada no #00, em que tomamos ciência das “mudanças” através do diário da Mônica. Na edição 01, os personagens falam o tempo inteiro das mudanças, em situações antinaturais como se só agora se tivessem percebido mais velhos. Afora isso, o roteiro é todo cheio de situações que se dão sem mais nem porque, truncadas, informações que surgem de repente sabe-se lá de onde. Some a isto o plot simplesmente estapafúrdio e clichezístico (o quê? Rainha bruxa malvada, robôs, monstros e SAMURAIS? Hum... lembra do que o Nagado dizia?) e ao equívoco da mudança de vários nomes (falo mais disso adiante) para que Turma da Mônica Jovem #01 seja leitura difícil de ser concluída de tão ruim que é, diferente das revistas de linha da turminha.

Como citei anteriormente, a questão dos nomes é equivocada. E olha que eu nem falo dos cavos mais bizarros e desnecessários, como o Anjinho (agora chamado de “Céuboy”. Pode? Tá, já li por aí que trata-se de uma referência à “Hellboy” – nem sabia que era mangá – mas não deixa de ser ruim por isso) e do Capitão Feio (“Poeira Negra”? Ah, fala sério!). Falo do Cebolinha (agora só “Cebola”) e do Franjinha (que também perdeu o diminutivo). Para quê mudar os nomes se os personagens são chamados apenas de “Cê” e “Fran”, respectivamente? E as eles se seguem “Mô” para a dentucinha. É de dar nos ovos!

Conclusão: faltou muito gás nessa fanta. Uma idéia que, no fim, no frigir dos ovos poderia dar um caldo, virou um lixo completo nas rendas do roteiro mais incompetente que eu já li na vida. Mais abarrotado de clichês que eu já vi e, na mesma medida, mais desnecessário que posso imaginar. O que acaba dando um pouco da tônica de como eu vejo essa iniciativa: totalmente desnecessária. Penso que faltou ao velho Maurício um pouco mais de carinho e menos desejo de lucro com suas crias. Se era para tocar um idéia nova, revolucionária, deveria ele mesmo ter segurado as rédeas da coisa e, como conhecedor de mangá que é, nos brindado com algo novo, um mangá genuinamente brasileiro, com temas verde-amarelo e personagens idem: como sempre foram as histórias de Mônica, Cebolinha e cia. Do contrário, escolheu deixar na mão de mais um roteirista fantasma do MSP e deu no que deu. Se não tivesse custado R$ 5,90, tinha ido para o incinerador.

E sabe o que é pior de tudo? A edição #00 é até agradável e poderia instigar o leitor (eu incluso), mas foi lida depois da edição #01, destruidora irreparável de qualquer ilusão de qualidade.

Pra não dizer que eu não falei de nenhum ponto bom da revista, cito a participação do Prof. Licurgo, que até faz rir. E só. Pouco, né?

Conclusão: faltou ao pessoal do MSP fazer o dever de casa. Mangá, meus caros, é mais que olhinhos grandes, boquinha pequena, cabelos estranhos, corpinhos esbeltos, papel jornal, arte em P&B, robôs, rainhas bruxas, nomes irados e samurais no bairro do Limoeiro. Mangá é um modo de se contar uma história, e “A Turma da Mônica Jovem #01” não é mangá. É uma ofensa ao gênero, ao quadrinho brasileiro e ao passado dessa Turminha que encanta gerações há quase quatro décadas. É uma vergonha.

Por fim, só o momento picuinha: o Anjinho cresceu. Como? Não sei. Turma da Mônica sempre teve o pezinho bem colocado na mitologia católica (sim! O Chico tem o Padre Lino, e se confessa. Nas HQ’s do Anjinho, muitos santos já deram as caras, como São Pedro) e agora o Maurício me apresenta um anjo que cresceu, envelheceu? Argh! Pô, pessoal, anjo não muda! Nasceram junto da criação e envelhecem como as crianças humanas? Ok... deixa quieto.


Nota: Turma da Mônica Jovem nº 00 (vem como brinde na Revista Tina Especial nº01)

Nota: Turma da Mônica Jovem nº01 (Ed. Panini, R$ 5,90 - preço promocional)


___________________

¹ NAGADO, Alexandre. Como desenvolver roteiro para mangá: narrativa, dinâmica, personagens. In______ Curso Básico de Desenho 13. Osasco: Canaã.

5 comentários:

Anônimo disse...

Aê, Lucas! Consegui ler essa atrocidade ontem, para minha infelicidade (o bom é saber que é tão ruim que talvez daqui alguns anos se torne aquele tipo de vergonha para os autores e, quem sabe, passará a valer uma boa grana, como o primeiro disco do Roberto Carlos e a Playboy da Xuxa!)!

Embora seja ruim por demais, achei alguns pontos positivos: a Maria Cebolinha (que sempre foi uma das minhas personagens favoritas da turma), que ainda age em conformidade com a turminha clássica, algumas frases que brincam com a questão dos personagens fazerem parte de quadrinhos(como quando a Mônica fala que parecia que todo ano faziam sete anos) e alguns comentários da Magali, que embora hoje seja uma patricinha cheia de trejeitos irritantes, ainda tem umas frases bobas que parecem ter sido retiradas da turma normal.

Claro, algumas frases. A maior parte é puro lixo para encher as páginas.

De início já percebemos a qualidade da narrativa, quando a Mônica acorda, pega um livro para ler simplesmente e diz: não posso ler agora! Preciso me arrumar para a escola!
Sem contar que ela diz no começo que é primeiro dia de aula, mas ao chegarem na sala, o professor dá uma prova para eles!!! Falta completa noção temporal!!!

A revista tem um foco completamente perdido. Coloca personagens extremamente infantis, completamente politicamente corretos... e mesmo assim usa umas piadas de contexto sexual, como aquela do Cascão e o pai no banheiro!

Enfim, preferia uma revista sem monstros e que usasse as características dos personagens na vida adulta. Colocar o Cebolinha sofrendo por sua dislalia, a Magali gorda e com problemas de saúde, Cascão sofrendo com aceitação... explorassem mais as características dos personagens. Talvez até colocassem cenas de aventuras e tal, mas algo mais estilo Os Goonies ou Patrulha BRAT, onde os excluídos formariam seus próprios clubes, diversões e, por que não, uma forma contestadora de viver à margem do socialmente aceito, algo que o Maurício fez tão bem com a Turma da Mônica clássica.

Abraço aí!

P.S.: valeu pela análise!

Assinado: DK

Valquiria disse...

Ahh fala serio.A revista ta "MARA"!Mauricio de Souza teve muita criatividade e mostrou os adolescentes de hoje!achei tudo um maximo e é um bom livro para os pré-adolescentes como eu que já começam a entrar em conflito.
A turma agora cresceu sem perder seu estilo de Humor emoção e uma pitada de Amor.Até o Anjinho e o Franjinha cresceram.Agora mauricio pode fazer com ke Mônica e Cebolinha(atual Cebola)Fikem juntos!

Eu amei Mônica Jovem!:)

Eu parabeniso o nosso Mauricio!

Ass:Valquíria Clara
Fã nº1 da Turma da Mônica,tanto Criança como Jovem!

Flaid disse...

Ei, por acaso o autor da matéria é o Alexandre Nagado ? Cara, se for você mesmo eu estou decepcionado com seu comentário ! Te "conheço" da antiga revista Herói e nunca imaginei que um profissional do seu nome tivesse uma mente tão fechada e retrógrada,com uma atitude tão pouco profissional em relação ao trabalho dos outros. É claro que ninguém é obrigado a gostar de algo e com é no seu blog você têm todo o direito de falar o que quizer mas realmente estou triste por logo você falar tanta besteira dessa revista. Pelo jeito você ñ é tão bom assim na sua área como imaginava, já que você ñ entendeu o "espírito" da revista. A Turma da Mônica sempre tratou de vários assuntos de forma cômica e satírica. Mesmo agora, o Maurício ñ tinha pretensão de criar um autêntico mangá mas sim prestar uma homenagem bem humorada a eles. Se ñ fosse assim, ao invés de "estilo mangá", ele teria criado o nome como "Mangá Turma da Mônica Jovem", por exemplo. Lamentável seu comentário assim como desse Anônimo que é mais um de cabecinha pequena.

Flaid disse...

Parece que eu estava totalmente equivocado quanto ao editor da matéria. Mas ñ entendi o que o nome do grande Alexandre Nagado está relacionado com o blog. Alguém poderia me explicar ? E se por acaso ele tiver lido meu comentário, onde quer que esteja, eu peço desculpas e retiro tudo o que disse sobre ele. Então minha crítica sobre a matéria vai especialmente para o autor do post, esse Lucas é quem ñ sabe de nada sobre quadrinhos e fica falando besteira. Acho que foi por isso que meu comentário foi publicado mas como minha crítica vai para você, meu caro Lucas,provavelmente ñ vão publicar este meu comentário.

Lucas Ed. disse...

Flaid, vamos por partes para ficar claro: 1) O que o nome do Alexandre Nagado faz na matéria?
O nome do Nagado foi citado porque eu copiei e colei (manja o famoso Ctrl+C Ctrl+V?) um trecho de um texto dele sobre o que seria um mangá. A referência do texto está aí, completinha, e foi publicado numa revista muito posterior à Herói (que convenhamos, era bem vazia em matéria de conteúdo) 2) A publicação dos comentários.
Será que você não percebeu que, quando comentou, seu texto carregou imediatamente? Os comentários não são moderados, apesar do Dan Siqueira costumar apagar comentários pessoalmente ofensivos, o que ainda não foi o seu caso. Usar a desculpa do fraco (não vão publicar meu texto porque eu estou criticando vocês) é bem batido e não cola aqui. Desde que você tenha respeito, pode dizer o que quiser.
3) Turma da Monica Jovem: eu continuo achando ruim. E pelo mesmo motivo: o Estúdio Maurício de Sousa escreveu uma história para o mesmo público de sempre (as crianças, até aí nenhum problema) mas mascarado de trabalho para adolescentes. Todo mundo que eu vi que elogiou ou eram crianças (que não sabem como é a juventude) ou adultos, que guardam uma visão tão romântica e nostálgica da juventude que sequer lembram como ela realmente era. Some a isso o arremedo de elementos de mangá que eles colocaram na trama ("Uma coisa de cada vez/tudo ao mesmo tempo agora" diziam os Titãs), sendo a própria rasa como um pires e pronto: você tem esse porqueira que nos entulharam. Por sorte, a Turminha tradicional continua...