
Pois comecemos do princípio. E é do princípio mesmo, pois estou falando de ninguém menos que o primeiro super herói do mundo, o Superman. Estrela do primeiro volume da série (e que acaba de ganhar uma outra série de encadernados só sua), ao Escoteirão coube a reponsabilidade de começar a série da editora, assim como ele próprio começou
a editora.
E seu volume não faz feio: As maiores histórias do Superman é quase digno do nome. Mas eu explico o quase ao final do post.
A edição conta com um prefácio interessante do produtor e roteirista Michael Uslan e um epílogo chamado "Colaboradores" com uma breve biografia de algumas pessoas envolvidas na história do último filho de Krypton. No miolo do encadernado, algumas histórias realmente emblemáticas, como a origem do herói e de seus poderes, pela dupla Siegel e Shuster (cujo o sobrenome no índice carece do último "r"), a chegada de temíveis criminosos kryptonianos, a curiosíssima história "Precisa haver um Superman?" de Elliot S! Maggin, a nova origem do herói pelo canadense John Byrne, e seu confronto com os novos tempos na forma do remendo de Authority, a Elite, na HQ "Olho por Olho?" de Joe Kelly. Bacana de ser citada é a história "Os últimos dias do Superman", de 1962, escrita por Edmond Hamilton e ilustrada por Curt Swan. Cito esta história porque os mais atentos certamente estabelecerão, sem dificuldades, um paralelo entre ela e a excelente série "Superman All Star" conduzida por Grant Morrisson. No resumo da ópera, é o melhor álbum de todos até agora. As informações "adicionais" (prefácio e epílogo) acrescentam muito ao volume, e temos realmente algumas histórias emblemáticas, como as "origens" de Siegel & Shuster e de Byrne, bem como o confronto com a nova onda que dominou os últimos minutos dos anos 90: os anti-heróis dispostos a cortar o mal pela raiz, matando os vilões ("Olho por Olho?"). Claro, fatalmente algo faltaria, e falta
muita coisa. A brilhante origem do herói de uma (UMA!) página por Morrisson & Quitely apresentada em "All Star Superman #1". Ou algo criado pelo mago Alan Moore (como "Para o homem que tem tudo", por exemplo). Apesar de ruim, não sei se dá para algo relacionado à "Morte do Superman" passar batido. Mas, visto o espaço, bem, deixo como reclamação mesmo apenas dois histórias que fizeram mais falta:a já citada origem de "All Star" e uma HQ um tanto quanto recente, cujo título (e roteirista) não lembro, mas que foi ilustrada pelo Stuart Immonen, onde Lex Luthor conta a origem dos principais vilões do escoteiro para sua filha dormir. Curtinha, poucas páginas e um arraso de HQ!
Sinceramente? Se o encadernado do Superman representa o melhor da leva até então, o segundo

volume quebra a linha e é, até o momento, o pior de todos: Lanterna Verde. Mas não nos apressemos!
A edição abre com o prefácio escrito por Peter J. Tomasi (Rollo Tomasi!), ex-editor da DC. E, ao contrário do volume do Super, não temos o adendo dos colaboradores. Uma lástima, pois era uma parte interessantíssima. Na seleção de histórias, nada muito inspirado, se querem saber já de antemão. São poucas as histórias realmente dignas de nota, como a origem do herói (contada em "S.O.S. Lanterna Verde", de John Broome e Gil Kane e recontada na história seguinte!); ou a estréia de John Stewart, o Lanterna Verde Negro, em "O mal sucumbirá ante minha presença" da afamada (e amada) dupla Dennis O'Neal e Neal Adams. E, apesar de não ser grande coisa em matéria de roteiro (não é excelente mas também não incomoda), "O dia do julgamento" vale pela apresentação de alguns variados membros da tropa, mas mais ainda, pela excelente arte de Dave Gibbons.
Agora, a grande lambança da edição: o título. Sim. Você leu, eu li, todo mundo leu: "As maiores histórias do Lanterna Verde". Mas não era isso que deveria estar escrito. Deveria ser "As maiores histórias de Hal Jordan". Sim, senhoras e senhores,
todas as histórias giram em torno do
High Ball! Poxa! E onde estão Alan Scott, Guy Gardner, John Stewart e Kyle Rayner? Sim, todos eles aparecem mas não passam de meros coadjuvantes... Inclusive, esse serviço mal feito de seleção das histórias ficará ainda mais evidente quando chegarmos ao volume do Flash que, exceto por Bart Allen (o ex-Impulso) contemplou todas as gerações de corredores escarlates!

Para o terceiro volume convocaram ninguém menos que a maior heroína do Universo DC, a Princesa Diana de Themyscira, a Mulher Maravilha! Para o prefácio da edição, ela (e não poderia ser outra pessoa) Lynda Carter, a Mulher Maravilha/Diana Prince do seriado dos anos 70, ex-miss Estados Unidos. E, se me permitem, é o melhor dos prefácios, pois é o único que realmente conta algo de novo (e interessante) sobre o personagem, levando a reflexão inclusive além dos quatro traços que limitam o quadrinho. Numa rápida corrida d'olhos nos nomes de autores no índice, notam-se três dolorosas ausências, todas no campo dos desenhos: Jose Luiz Garcia-Lopez, Terry Dodson e Rachel Dodson. Dá pra dizer, sem medo de errar, que enquanto a "cara" da personagem nos anos 80 foi dada pelo espanhol, nos 2000 não há outra representação melhor do que a dos Dodson. Puta bola fora excluí-los.
Com um pouco mais de critério vemos outra falha: aqui os "colaboradores" realmente fizeram falta, ou corre-se o risco, por exemplo, de nunca sabermos que William Moulton Marston, o criador da personagem, era um renomado cientista, psicólogo e feminista que, além disso, criou o primeiro e lançou as bases para todos os trabalhos com detectores de mentiras! Uma enorme sacanagem com a primeira grande super heroína do mundo, se me permitem!
Quanto às histórias, bem, a queda de qualidade é notável. Não há nada de grande destaque, nada realmente relevante na vida da amazona, e eu fico pensando se é um problema da personagem ou da organização do álbum. Destaco mesmo só a arte de H.G. Peter, parceiro de Moulton Marston nas histórias da Maravilhosa, e que é classuda e bonita de se ver. De resto 9em matéria de arte) o que há de bom já nos é bem conhecido: Mike Sekowsky, Curt Swan, George Pérez e seu genérico Phil Jimenez...
Inclusive, é deste último aquela que considero a melhor história do encadernado, "Ela é uma maravilha!" que é bem bacana. O restante é médio ("Quem matou Myndi Mayer?"; "A rival da Mulher Maravilha" e "Seja a Mulher Maravilha... e morra!") ou ruins de doer ("Confidencial" e "Giganta, a garota-gorila "). No fim, acaba sendo vergonhoso chamar essa reunião de HQ's ruins de "as melhores histórias" da personagem: gol contra!
E aí damos de cara com o último dos volumes que me veio às mãos até agora (e não graças à

distribuição setorizada do demônio): "As maiores histórias do Flash". Sendo rápido como o personagem merece, cabe dizer que o prefácio é escrito por Mark Waid (que deveria ter escrito o prefácio do Superman, mas deixemos baixo), e foi enxugado para caber em uma página só. "Colaboradores" é realmente uma vaga lembrança, não tenha esperanças. Sobre o álbum em si, primeiro lembrar aquilo que eu falei no volume do Lanterna Verde: a história do Flash é uma história de legados. Jay Garrick, Barry Allen, Wally West, Bart Allen. Todos Flashes, o manto passando de mão em mão. Um álbum que se entitule "As maiores histórias do Flash" precisa contemplar todos eles! E quase chega lá, faltando só aquele de carreira mais curta, o Bart. Tudo bem, dá pra passar. Ou seja: o álbum do Flash dá um banho no do Lanterna Verde, e banho de lambuja: chegamos mesmo a ver os
outros corredores que não flashes, como Max Mercúrio e Johnny Quick. Entretanto, nem tudo são flores. Apesar de ser o único herói cujos vilões se organizam numa "galeria", isso talvez só se dê pelo quão insossos eles são. Os três flashes passam longe de ter algum vilão de real destaque e que represente, de fato, alguma ameaça. Daí temos de engolir duas histórias contra o supergorila Grodd ("O desafio dos supervilões" e "Além da barreira da supervelocidade!"). O Flash Reverso, aquele que atualmente se tornou dos melhores oponentes do corredor escarlate, também dá as caras numa história doída de se ler ("Um noivo a mais", de 1966). Entretanto, nem tudo são críticas e o álbum traz duas histórias totalmente notáveis: "Flash de dois mundos", de 196, escrita por Garnder Fox e desenhada por Infantino é importante não só para a mitologia do Dínamo vermelho, mas para todo o UDC, ao juntar pela primeira vez um herói da Era de Prata com seu correspondente na Era de Ouro. A outra HQ digna de nota é "Deslocado no tempo", de 1994 (pela dupla Waid & Wieringo), única estrelada pelo Flash Wally West. É uma história reflexiva e que lança uma luz, pasmem, sobre uma HQ lançada muito tempo depois: "O Reino do Amanhã", escrita pelo próprio Waid.
De resto, ainda que o encadernado do Flash seja o mais bem organizado dos quatro, ainda assim é o piorzinho dos três, dada a baixa qualidade das histórias estreladas por Barry Allen, e elas são a imensa maior parte do álbum (das 8 histórias, 5 são estreladas por ele, 1 por Joel Ciclone, 1 por Wally West e uma - em 6 partes - é dividida entre os três). Os roteiros são repetitivos, batendo sempre nas mesmas teclas, o que é uma pena. É um daqueles personagens que acaba funcionando melhor nas revisitações do que nos originais. Definitivamente, o homem mais rápido do mundo é aquele que mais sofre com os efeitos do tempo.
Mas, tal e qual o encadernado da Mulher Maravilha, o álbum do Flash me trouxe uma surpresa artística bastante agradável na forma da arte de Lee Elias, responsável pela história estrelada por Jay Garrick ("Ameaça da Idade da Pedra", de 1947). Apesar da idade, a arte de Lee traz alguns elementos bem contemporânos, como o uso forte de ângulos. Sem contar que a arte final coube a ninguém mais, ninguém menos que o grande Joe Kubert! Outra arte bacana e que foi novidade para mim é a de Kurt Schaffenberger (na parte três de "Além da barreira da supervelocidade", de 1978). A arte do sujeito é realmente bonita de se ver, é bem bacana ver a solução que ele usa para mostrar Jay Garrick e Johnny Chambers se vestindo em supervelocidade.
...
No fim, a série, até o presente instante, tem sido bem mediana. Mediana para ruim, se me permitem. Uma seleção de histórias incompreensível, falta de constância (sim, me refiro à sessão "colaboradores"). Faltou que se estabelecesse uma "edição modelo", um "boneco" do que deveria constar em cada edição. Ou seja, na minha opinião, cada edição deveria ter uma mesma linha, um padrão: origem do herói, alguns momentos marcantes (o encontro dos Flashes, a morte do Superman, a conclusão de "A noite final" ou o "Crepúsculo Esmeralda", o uniforme branco da princesa amazona...), alguma história do maior vilão do personagem (Luthor, Sinestro, a Galeria, Ares - cadê ele?) e, pra fechar,
Aquela história escrita por uma equipe marcante na historiografia do personagem (esse foi o único ponto constante nos quatro volumes: Byrne no Super, Adams/O'Neal no Lanterna, Pérez na Maravilhosa e Waid/Weiringo no Flash). Sim, nos heróis de legado teríamos três origens, mas isto pouco importa. São as "maiores" histórias!
Inclusive, acho que o grande tiro no pé da série é justamente o título tão presunçoso. Nenhum (eu disse
nenhum) dos quatro volumes cumpre esse objetivo ou sequer passa perto dele! Daí fica esse gosto de café de ontem. Blerg!
Pra fechar, uma crítica à Panini: Hey! Que idéia de jegue foi essa de deixar o Morcego para o último volume, depois mesmo da Liga da Justiça? Caceta, qual foi o critério, Seu Denardin? Cronológico não foi (Batman surge pouco depois do Superman), importância também não (DC vem justamente de
Detective
Comics, a revista do Bátima!), tampouco evidência, já que o filme do Morcego bombou nas paradas esse ano. Vai entender a cabeça desse povo...
"DC Especial 70 anos: As maiores histórias...", série em seis volumes, Ed. Panini, R$ 22,90 cada.
Nota:
Dois Oinc's! e veja bem, só foi tão alta assim por conta dos bottons que acompanham cada edição e são relamente bacanas!