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segunda-feira, 20 de julho de 2009

[Cinema] .apenas o fim.

>Texto Originalmente publicado no blog "Feito no Brasil"<

Pra começar logo com o pé direito, vamos com um filme que, ao menos na blogosfera e nos meios internéticos em geral, tem dado o que falar. Matheus Souza, um jovem estudante de cinema da PUC-Rio escreveu e dirigiu o filme sobre o casal de namorados onde a garota, um belo dia, decide fugir, ir embora. O "Feito no Brasil" foi assistir e agora conta a você tudo sobre o filme (mas sem estragar - muitas - surpresas!).

Pra ganhar tempo, vamos "pegar emprestada" a sinopse que circula por aí:

"Adriana (Érika Mader) decide fugir de sua vida comum abandonando seus pais, seus amigos e o namorado Tom (Gregório Duviver) sem dar explicações sobre seu destino. Mas antes de partir, ela resolve passar a última hora com ele, tendo uma longa conversa enquanto andam pela faculdade. Eles falam de seu relacionamento lembrando o passado, imaginando o futuro e discutindo uma série de medos e questões envolvendo a geração de que fazem parte."

Antes de continuar, é preciso dizer que o filme já nasceu premiado, foi escolhido pelo júri popular como melhor filme no Festival do Rio do ano passado e na 32ª Mostra Internacional de São Paulo. E a razão de tanto frisson não é difícil de compreender: Matheus Souza, ao escrever a história de Tom e sua namorada que vai partir colocou na tela, de forma quase crua (mas não entenda crueza como dureza) os anseios de uma geração inteira. Jovens entre os 20 e os 30 anos, que ainda não se vêem plenamente adultos mas que no fundo sabem que já estão lá. Matheus escreve diálogos recheados de cultura pop, de citações que vão de pokémon a Power Rangers originais (aqueles dos idos de 1994!), passando mesmo por He-Man. Inclusive, é esse caldeirão de referências pop que lhe rendeu (apressadamente, na minha opinião) a alcunha de Kevin Smith brasileiro.

Quero dizer que Matheus Souza e seu filme não são bons? Não senhor, o trabalho é de muita qualidade. Mas, há um pera lá. Não é porque é nacional, que é independente, que nós vamos passar a mão na cabeça e dizer que tá tudo lindo. Não é a proposta e ninguém cresce assim.

Mathues Souza tem talento? Inegavelmente. Seus diálogos cheios de referência e um humor quase sutil, de uma observação genuína dos tipos humanos (homini universitarius na maioria das vezes) é sagaz. Não dá pra negar isso tudo, ao mesmo tempo que também não se nega que, tendo estreado com o pé direito, o autor/diretor ainda tem muito pra crescer e melhorar, e aí sim tornar-se o nosso (ou melhor) Kevin Smith.

Talvez um dos problemas seja ter encontrado uma "fórmula": mais da metade do filme os diálogos se resumem justamente às referências. É Tom perguntando, em flashback, à namorada que filme ela seria, que pokémon, que coadjuvante de Sonic, que cavaleiro do zodíaco, que música... Pode parecer o justo contrário, mas os personagens não se desenvolvem. É tanta "informação" (Shyriu, Bubbassaur) que não se absorve tudo. Mesmo porque, para absorver tudo, teria de se conhecer todas aquelas referências. Como a fórmula se repete tanto, acaba gastando também. E cansando. E o pior é saber que a fórmula se repete não porque o autor não consegue fugir dela: pelo contrário! Há cenas realmente memoráveis, onde essa questão toda sequer se insinua (quando por exemplo, a garota dá um carrinho de plástico a Tom e pede que ele entregue ao irmão mais novo) ou na cena da interpretação dos sonhos da namorada. Aqui inclusive se ressalta outro ponto: talvez por seu caráter evidentemente autobiográfico, Tom é um personagem muito mais consistente do que a namorada (cujo nome - Adriana- sequer nos marca). Nós sabemos como ele pensa, a forma como encara a partida da namorada, tudo com muita clareza. Dela só podemos inferir, ou ouvir numa frase quase solta ao final. Sua personagem é tão rasa, que sua decisão de fugir simplesmente não cola. Parece que ela encontrou um bombadão na praia, que engravidou do melhor amigo de Tom, qualquer coisa. A última hipótese é que ela deseja "se perder pra se encontrar", como diria Lulu Santos.

Mas mesmo no paraíso temos problemas, e se Tom é um personagem muito melhor que Adriana, Erika Mader também é uma atriz muito melhor do que Gregório Duviver. O rapaz é canastrão demais muitas vezes, e encarna um nerd completamente estereotipado, daqueles que gaguejam o tempo todo para falar e que só sentem emoção sobre qualquer coisa três dias depois. A cena do banheiro deixa claro o desejo de Matheus em afirmar o sofrimento do personagem, mas a interpretação de Duviver é tão inferior à de sua colega de cena que você pensa que ele está é com prisão de ventre e não em pânico por ser abandonado.

Enfim: pode não parecer (pelo que escrevi aqui) mas ".apenas o fim." é um filme muito bom. Tem em si aquele gosto gostoso de cinema independente, sem nenhuma porralouquice de "vanguarda intelectual". É um filme sincero e honesto, sem traficantes, sem folclore nordestino, sem falar de favela. É um filme daqueles que o Brasil ainda está precisando aprender a fazer, aquele cinema cotidiano tão legal de se ver. O filme peca? Claro que peca! Caçamba, é a estréia do cara, ainda tem muito pra amadurecer. Mas veja bem, eu disse amadurecer. Ou seja: Matheus Souza tem um potencial enorme, desde que se lapide. E isso acontecendo, meu chapa, pode ter certeza que ganharemos um cineasta de primeira linha...

Agora é esperar sair em DVD para ganhar espaço no cofre!

2 comentários:

Lucas Pimenta disse...

Meu amigo, e Xará, você disse tudo... Sai do cinema com essa mesma sensação... o filme é tudo isso ai.

E assim que sair, será cofre tb... sem pensar duas vezes!

Falando em cinema independente, veja Simonal.. é outro muito bom... melhor até, do que ".apenas o fim."

Abração

Evelling disse...

Analise lúcida e aguçada.
Vc disse EXATAMENTE o que pensei. Principalmente sobre o "abuso" do caldeirão de referências (E olha que sou mais Nitendo!). Ainda assim, como vc, eu recomendo. Porque se ele se lapidar: vai ser muito bom ir ao cinema!