
Esse personagem vai se chamar José. José curte demais ler quadrinhos. Faz isso desde criança. Desde que achou aquela revista meio detonada com a parte 3 de 5 de uma história qualquer do Super Homem na casa do tio, ele se fascinou por todo aquele universo de gente forte, roupas coloridas e aventuras. Passou a encher os nervos da mãe pra comprar todo mês o Homem Aranha e a Liga da Justiça. José gostava de desenhar e copiava os desenhos da revista pra aprender a desenhar. Ia correndo mostrar pro pai o desenho que ele fez, e o pai, que estava mais interessado em assistir a Jornal passava os olhos em cima e dizia: “Legal!” A mãe achava tudo bonito, independente do que ele desenhasse. Seus amigos de escola achavam aquilo animal. “Cara, tu é bom pra caralho!” José começou a pensar que se tanta gente gostava, e ele gostava, poderia talvez viver disso. Poderia desenhar pra Marvel ou pra DC. O pai preferia que ele fosse mecânico e a mãe que trabalhasse em escritório. Mas mesmo assim José seguiu seu caminho porque a Xuxa disse na tv: “Não desista dos seus sonhos baixinho!”.



José foi crescendo e desenhando. Mas sabia, olhando o desenho dos profissionais nas revistas, que ainda precisava aprender muito mais. Começou comprando aquelas revistas de banca: “aprenda a desenhar...tal coisa”. Até deixou de comprar aquele encadernado do Batman pra poder comprar essas revistas. Mas no fim da leitura, tinha aprendido muito pouco. Talvez faltasse empenho, ou dedicação. Um curso com professor em sala de aula talvez fosse a solução. José não convenceu o pai a lhe pagar o curso que não era barato. Teve que ir praticando por conta própria por mais um tempo, até que começou a trabalhar em qualquer coisa e pôde pagar o bendito curso que ia mudar sua vida. Gastou uma boa grana em material de desenho. Papel tal A3, lápis A , B ,C , curvas francesas, elipsógrafo, circulógrafo, curvógrafo, compasso, canetas nankin, caneta corretiva, pincéis, mesa de desenho, mesa de luz, computador e todo o tipo de parafernália necessária pra montar seu estúdio. Passado o curso, lá estava José em seu estúdio. Ele tinha aprendido anatomia, luz e sombra, perspectiva, dinâmica, planos e arte final. Falavam no curso que um desenhista da Marvel ou da DC ganha 10 mil por mês ou até mais se for contratado. Sim, José finalmente ia lavar a égua. Pegou nas revistas os endereços dos estúdios conhecidos e mandou seu trabalho pra eles conhecerem. Vários pinups e alguns testes que ele baixou pela internet. Agora era só esperar pela resposta. Provavelmente não ia conseguir muita coisa boa de cara. Algum gibi menos conhecido de outra editora talvez. Uns cards.

Mas vieram as respostas. Algumas educadas, outras nem tanto. Precisa melhorar. Traço fraco. Falta isso, falta aquilo. Layout de página ruim. Pedem pra fazer mais testes. Pedem paciência. São profissionais. Eles sabem o que estão falando. José fica arrasado, mas segue adiante. Faz mais páginas, faz testes e refaz testes. Ainda precisa melhorar.
_“Ainda? Já vi gente pior desenhando o Batman!”
Mais algumas tentativas e José se vê diante de um dilema. Percebe que jamais terá a qualidade necessária pra desenhar pra Marvel ou pra DC. Todo o sonho de uma vida se desmorona diante dele. Deverá ele então, parar de desenhar? Não vai conseguir ganhar aqueles 10 mil por mês. Não vai realizar seu sonho de desenhar os X Men, que na verdade era bem mais importante que a grana.
Jamais? Sim. Felizmente José descobriu que jamais será tão bom quanto Jim Lee ou o Brian Hitch.
_“Felizmente? Tá cheirado Jackson?”
Pois é José. Nem todo mundo nasce pra brilhar da mesma forma. Algumas pessoas parecem que são predestinadas a serem boas e outras não. Você pode lapidar um diamante bruto, mas tem que ser um diamante. Não adianta lapidar pedra. Ainda assim, isso não significa que você tem que desistir. Os editores reclamam da sua pouca qualidade e os estúdios reclamam da sua demora em fazer as páginas. Mande todo mundo a merda. É muito bom mandar as pessoas a merda de vez em quando. Pra começar, tire da cabeça essa ideia besta de ganhar dinheiro desenhando. Arranje um emprego daqueles que seu pai ou sua mãe queriam pra você. Eles falaram a coisa certa e já viveram meia vida, sabem do que estão falando. Pense em ganhar dinheiro em um trabalho normal e honesto.
José foi trabalhar. Aprendeu algumas coisas aqui e ali. Mostrou vontade de aprender e empenho no trabalho. Não demorou pra ser reconhecido entre a massa de trabalhadores enfadados e malandros. José foi promovido e ganha sua grana. E pra onde foi o desenho?
José desenha todas as noites em casa e nos finais de semana. Conforme José cresceu, aprendeu que 90% dos desenhistas desse mundo jamais desenharam pra Marvel ou pra DC. Alguns muito famosos mesmo assim. José no entanto só sabia desenhar personagens conhecidos e não tinha vontade de criar personagens. Ainda tinha aquela imensa vontade de desenhar os X Men. Ele criou o fanzine com suas próprias histórias dos X Men e da Liga da Justiça e distribui por aí. Não ganha nem um centavo nisso, mas seu sonho se tornou real. Vive no prazer de ver as pessoas acompanhando as aventuras desses personagens que ele tanto ama e algumas pessoas já lhe disseram que algumas das aventuras criadas por ele são melhores do que aquela publicada naquele mês. Parte 3 de 5 de alguma saga.
Se você desenha porque gosta, só precisa aprender a moldar seu sonho de acordo com a sua realidade, e não desistir mesmo diante das piores adversidades. O futuro julgará a importância das coisas que FAZEMOS, e não daquelas que deixamos de fazer. Nem tudo na vida é sucesso ou fracasso. As vezes só é a vida.
Jackson Gebien

























