A entrevista que você irá ler agora com o editor do site Universo HQ foi editado pela primeira vez no fanzine Arena em janeiro de 2007 e agora estou cedendo a entrevista para o blog do Projeto Continuum, já que mesmo com o tempo ela ainda permanece bem atualizada com o cenário geral do universo dos quadrinhos. Apenas alguns trechos ficaram de fora, pois era referente a mudança do nome da revista Wizard para Wizzing Comics do qual o Sidão era editor, e acabou com o editor indo trabalhar para o Maurício de Souza e a revista de informações da Panini acabou com o nome de Wizmania. Segue a entrevista.
Você é um cara que já vem na batalha há um bom tempo. Passou por títulos expressivos no Brasil, editando com sucesso (em parceria com o Leandro Luigi) a primeira encarnação da Wizard Brasil pela Globo (que havia sido na verdade anunciada pela Best News), passou pela Conrad editando Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco com sucesso e voltando novamente com a Wizard pela Panini. Fora o vitorioso site Universo HQ (www.universohq.com). Como você definiria em poucas linhas sua carreira como editor?
Bom, primeiro permita-me corrigir um equívoco: eu trabalhei como redator da área de quadrinhos da Globo, junto com o Leandro, de 1990 a 1992. Ou seja, em títulos como Sandman, tex, Fantasma, Marvel Force etc. Eu NÃO editei a Wizard da Globo, mas era colaborador da revista.
Feita a correção, eu diria que me tornar editor foi uma conseqüência do desenvolver de minha carreira. Quando trabalhava na Globo que comecei a aprender sobre edição, com o Leandro. Na teoria, eu era redator, mas o ajudava sempre a fechar as revistas.
Mas foi quando saí da área de quadrinhos que me tornei efetivamente editor, inclusive no cargo. Foi na área de comunicação empresarial, na qual trabalhei 7 anos. Editei várias revistas e jornais e quando retornei às HQs, minha vida ficou bem facilitada, pois editar revista de informação é MUITO mais difícil do que editar quadrinhos.
Depois dos quadrinhos da Conrad, passei a editar a Wizard e vários especiais (como free-lance) da Editora Abril, como 100 Respostas sobre Alexandre, o Grande, um especial da Copa do Mundo para a Mundo Estranho (nesta revista também costumo cobrir férias do editor) e um de 50 Anos da Indústria Automobilística para a Quatro Rodas.
Ser editor é uma grande responsabilidade, mas eu curto.
Como é seu processo de trabalho na redação?
Trabalho em casa, pois sou free-lance. Mas o processo é assim: depois da reunião de pauta, escolhemos as matérias da edição e eu e o Levi montamos um espelho (o diagrama no qual são dispostas as páginas daquele número). Aí, o Marco Moretti manda ripa nas traduções e me envia por e-mail. Eu edito os textos e mando para o pessoal da arte diagramar.
Feito isso, vou revisando as páginas no papel, para pegar repetições de palavras, erros de digitação ou de informação etc. E só no dia do fechamento é que vou à sede da Mythos (onde é fechada a Wizard) para fazer os últimos ajustes... Nota: (Vale lembrar que essa entrevista foi dada na época da Wizard Brasil, mas como mostra como é o processo de trabalho do Sidão, resolvi deixar para curiosos)
O Brasil está vivendo um momento ótimo em termos de quadrinhos. Muitos lançamentos de todos os tipos saindo nas bancas e livrarias. Tem para todos os gostos e bolsos. Como você vê esse ´boom´ na terrinha? Será momentâneo ou ainda há muita munição à caminho?Acho que não é momentâneo, não. O problema é que esse crescimento é “na horizontal”, ou seja, MUITOS títulos, mas nenhum supercampeão de vendas. É a tal segmentação.
Se por um lado é maravilhoso, pois nunca tivemos tanta coisa boa saindo por aqui, por outro é preocupante pelo fato de não formar novos leitores.
E a produção nacional. Ela tem chances reais no meio de tanta artilharia de fora?Sem dúvida! Tanto que, nos últimos 3 anos não passamos dois meses sequer sem um lançamento nacional. “Ah, mas é pra livraria ou via incentivo fiscal”, alguns dirão. Pouco importa. O fato é que está acontecendo um movimento de autores nacionais publicando. Como isso ganhará vulto? Aí é outro papo, mas o fato de muita gente estar se mexendo e produzindo é um alento e tanto nesse sentido.
Você acha que os fanzines de certa forma, mantêm a chama acesa?Sou partidário de carteirinha de fanzines. Eles DEVEM continuar sendo feitos. Em papel ou até virtuais.
Hoje a internet é um meio de veículo muito rápido. As informações correm como rastilho de pólvora. Até onde isso pode ajuda ou complicar na realização e execução de projetos ligados as HQs no Brasil? A internet, se bem usada, é um aliado valioso na propagação da informação. Hoje, um cara pode conseguir trabalho mostrando um site para um editor de outro estado. Antes, tinha que fazer uma visita, mandar artes em papel pelo correio etc.
Sobre as informações, é o preço a se pagar. A internet tem a velocidade dos dias de hoje. Mas é preciso saber lidar com isso, pois MUITAS vezes o que vai ao ar na grande rede é boato. Então, é preciso saber diferenciar.
E os scans? Hqs inteiras scaneadas e colocadas para downloads na NET e de graça. Isso é um fator agravante para o mercado?
Eu sou contra os scans de materiais recentes. Antes, era contra todos, mas admito que mudei de idéia em relação a revista antigas, que não são mais encontradas. No entanto, é uma realidade. Não há como fugir disso. As editoras precisam, portanto, pensar numa forma de usar isso a seu favor.
O Orkut acabou virando um grande fórum de discussão sobre o mercado aqui dentro e fora em tempo real. Há até brigas virtuais. O que pensa a respeito disso?Olha, o cara “brigar” no Orkut é piada. Tem cara que é macho só em frente ao monitor. Então, o melhor a fazer é ignorar essas pessoas, que quase sempre se escondem atrás de pseudônimos. O legal do Orkut é encontrar amigos de tempos antigos e estreitar a comunicação com os leitores, mas alguns não aproveitam isso, pois têm a necessidade de causar encrenca, em busca de alguns minutos de “fama”. Como se isso fosse possível no Orkut.
Você é um cara ocupadão. Mas é uma pessoa de fácil acessibilidade ao público. Nem todos os editores têm essa comunicação direta corpo- a- corpo com o leitor comum. Você acha isso importante? Se manter perto?Sempre curti conversar com os leitores, que na verdade são meus clientes. Por isso, é importante saber o que pensam. Tem editor que pensa diferente, mas é o meu jeito de encarar a profissão.
No entanto, como escrevi acima, para cada 100 leitores bacanas, tem um mala. Mas isso a gente tira de letra. Afinal, tem gente que merece ser ignorada.
Você é “DCNAUTA” ou “MARVETE” ?Eu sou fã de bons quadrinhos. Mas sou mais fã da DC. Meu personagem favorito é o Batman, seguido do Sandman.
O que ler com freqüência (supondo que você tenha tempo para isso)? E o que leu de melhor em quadrinhos até hoje?Pra ler quadrinhos TENHO que ter tempo. É meu trabalho. Leio praticamente tudo que sai no mercado. Algumas coisas ficam de fora, mas não tem jeito.
O melhor quadrinho que li na vida chama-se Os Companheiros do Crepúsculo, do François Bourgeon. Saiu aqui, em três álbuns, pela Meribérica, no começo dos anos 90.
O que achou de sua experiência como roteirista no fanzine vencedor do HQ Mix, Manicomics? Você repetiria a dose? Você acha que poderia manter um ramo como roteirista caso houvesse mercado para isso no Brasil?Pouca gente sabe, mas fiz muitos roteiros para HQs empresariais. E tenho algumas histórias prontas, que estão hibernando numa gaveta, esperando a hora de sair. Eu curto escrever e pode pintar mais coisa minha, sim.
Você escreveu um livro sobre Mauricio de Sousa, o pai da Turma da Mônica, que foi lançado agora em 2006. Como foi que surgiu a idéia e como foi o processo de fabricação do livro?Eu há tempos queria escrever um livro. Achei que o Mauricio seria bacana, por ser nosso quadrinhista mais bem-sucedido. Ofereci o projeto à Globo, obtive o aval do Mauricio e saiu o Mauricio – Quadrinho a Quadrinho, que está indo muito bem. O livro foi feito em três etapas. A primeira, uma série de entrevistas com o Mauricio, pra me contar como surgiu a paixão pelas HQs e seus personagens, autores e séries favoritas. A segunda foi uma pesquisa intensa sobre cada um dos 30 eleitos pelo Mauricio, como seus favoritos. E, finalmente, amarrar tudo isso em forma de texto. Ah, eu também ajudei a fechar (editar) o livro.
Você pretende escrever mais coisas assim?Pode apostar.
O que você sugere para quem quer tentar o ramo de editor no Brasil na linha de quadrinhos?Olha, a formação jornalística é algo desejável, mas se não tiver, basta que se tenha um conhecimento acima da média de português e, CLARO, de quadrinhos.
Você acha que o preconceito para com o leitor de quadrinhos é o mesmo de algum tempo atrás ou há mais respeito agora, até mesmo por conta de filmes de super- heróis estourando nos cinemas?O cenário está mudando, mas ainda não acabou o preconceito. Por isso, digo sempre que é missão de todo leitor de quadrinhos combater isso. Ora, quadrinhos é coisa de criança? SIM! Como cinema também. Ou seja, assim como o cinema, as HQs têm vários gêneros: infantil, juvenil, adulto, erótico, documentário, de humor, aventura, suspense, terror etc. Precisamos explicar isso pras mentes tacanhas que teimam em não enxergar.
Como editor, tem algo que você gostaria de fazer nesse meio que ainda não realizou?Editar quadrinhos nacionais. Como sempre digo (até escrevi uma coluna sobre o tema na Wizard), eu NUNCA editei quadrinhos. Eu editei TEXTO. Você intervir no roteiro ou no desenho é editar. No que vem pronto, só editamos o texto.
Nota: (O Sidão falou recentemente disso numa coluna para o site Universo HQ. Para ler é só clicar AQUI)
Para finalizar, o que os leitores brasileiros podem esperar para o mercado de HQs em geral?Como falei, estou achando que teremos grandes dias pela frente. Nosso mercado precisa disso.
Agradecemos a entrevista cedida e desejamos toda a sorte do mundo a você, Sidão.Sidney Gusman é um dos profissionais que lida com quadrinhos mais bacanas e sóbrios que conheço, com uma visão do mercado e do mecanismo disso aguçado como poucos. Foi muita gentileza dele, mesmo com tanta coisa pra fazer, ter sentado e respondido a tantas perguntas com entusiasmo e dedicação. Todo mundo sabe o endereço do cara, mas fica aqui registrado assim mesmo. Faça uma visita ao site Universo HQ ou blog do site, onde há sempre alguma novidade.Site
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