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domingo, 10 de janeiro de 2010

[Eu vi] Distrito 9 [atualizado]


Há vinte anos, uma gigantesca nave alienígena apareceu nos céus da Terra. Inexplicavelmente, sobrevoou Johanesburgo, capital da África do Sul e lá parou. Nenhum movimento, nenhum sinal, nenhum contato. Quando os humanos enfim decidiram "forçar" um contato com a tripulação da nave, se depararam com um grande número de aliens vivendo em condição de miséria. Sem alimento, sem combustível, eles estavam ali para morrer. Numa ação "humanitária" (e nem de longe esta é a melhor palavra) os governos do mundo decidem instalar os aliens numa área provisória, que cresce, em área e população, até tornar-se uma favela: nasce o distrito 9.

Mais ou menos, era isso que eu sabia sobre o filme independente produzido por Peter Jackson (de "O Senhor dos Anéis", e cujo nome tem mais destaque do que o do diretor, Neil Blomkamp). Talvez uma pitadinha a mais sobre a idéia de que se tratava de uma metáfora sobre a segregação de raças, e só. Possivelmente foi esse pouco que me afastou da produção. Isto até pipocarem as famigeradas listas de "Melhores e piores do ano", que praticamente me obrigaram a assistir o longa.

E vou dizer logo de uma vez, sem xurumelas: "Distrito 9" é tudo, sem tirar nem pôr, que "Avatar" quis ser e passou longe de conseguir.
A trama, apresentada como um documentário, se inicia quando a MNU, versão da ONU no longa, faz cumprir uma "ordem de despejo" para os aliens, realocando-os num novo lugar, um distrito 10, que na verdade não passa de um campo de concentração, longe dos olhos da população sul-africana. Wikus van der Merwe (Sharlto Copley), um burocrata abobalhado recebe o comando de campo da ação de despejo. A história é contada então como um memorial, que retoma toda a questão das relações aliens X humanos para entender o malogro e uma suposta traição de van der Merwe. A impressão que temos é que estamos assistindo mesmo um documentário do Discovery Channel, mostrando a opinião de assistentes sociais, urbanistas, médicos e colegas de trabalho de Wikus. E talvez aqui esteja o maior acerto do diretor: assim como o diabo foge da cruz, ele foge da linguagem cinematográfica para abraçar, de peito aberto e com muita atenção, a linguagem televisiva, mais especificamente aquela televisão espetaculosa, tão comum em programas como "As maiores perseguições da América" e "Cidade alerta's" da vida. Com isso, e muito mais do que se lançasse mão de centenas de milhões em efeitos visuais, permite que o espectador entre na trama. Blomkamp abusa de um veículo de comunicação absurdamente cotidiano para nos dar a impressão de que fazemos parte daquilo, tanto quanto um mineiro se comove ao ver, em tempo real, um seqüestro que ocorre na cidade de São Paulo, por exemplo. E isso é importantíssimo para o filme.
Porque essa imersão realística é tão importante em "Distrito 9" (ou "D9" para os íntimos)? Porque é ela quem vai fazer uma história simples, com uma boa dose de clichês (como "Avatar" tornar-se realmente interessante). Assim como fiz com o filme de Cameron, D9 pode ser resumido em poucas linhas: indivíduo despreza completamente a outra raça (a cena da queima dos ovos de "camarões" - como os aliens são chamados - é absurdamente significativa), mas um infortúnio o obriga a mudar de lado. A ele se somam os velhos clichês do sogro dissimulado, da indústria bélica inescrupulosa e do general malvadão imortal e pimba. Senhoras e senhores, Distrito 9!
Mas, você deve estar se perguntando: se D9 e Avatar são tão parecidos, então porque o primeiro é assim tão superior ao segundo? Justamente por aquilo que já disse: cinema é uma arte de contar, em meio audiovisual, uma história. E nisso, Blomkamp lava a cara do veterano Cameron. A história está bem contatada. Pode-se sentir a angústia de Wikus, pode-se ficar angustiado com a fotografia suja e as câmeras amadoras, jornalisticamente desesperadas com as quais o diretor povoa a tela. Há efeitos visuais? Claro, são mais que normais num filme de sci-fi. Entretanto, Blomkamp (talvez até pelas restrições orçamentárias) opta por um caminho diverso de Cameron e abandona o CGI de espetáculo: o filme inteiro você fica maluco para ver os aliens em detalhes, com calma e clareza, mas isso nunca acontece. Lembra que da linguagem televisiva? Então: tudo é pela metade, as coisas só são importantes enquanto algo mais importante não acontece. Além disso esse é um ponto para a imersão do espectador: oras, os aliens já estão na Terra há 20 anos, todo mundo já sabe como os "camarões" são: quem ainda os quer ver em detalhes?
E nessa opção ecônomica dos efeitos, Blomkamp realmente se dá bem. Os aliens (que parecem muito mais com gafanhotos do que com camarões) se movimentam bem, com muita naturalidade dentro da fotografia suja e crua do filme. Os aliens são possíveis, são asquerosos e abjetos, mas todo o tempo o contexto te lembra: os sacanas da história não vieram do espaço, já estavam aqui...

Ainda que muitas vezes a gente torça o nariz para análises politiqueiras de filmes de ficção, em D9 não se pode privar desse assunto. Até porque o filme foi concebido sim como um manifesto, quase uma fábula sobre a segregação. D9 é montada como a extinta Soweto, e as imposições sobre os camarões (que precisam de permissões para tudo, de se reproduzirem a ter materiais eletrônicos em casa) claramente remete aos judeus no curso da Segunda Guerra.













Inclusive, nesse meio todo, Wikus é, surpreendentemente, um personagem muito passível de identificação pelo espectador: ele é covarde, bem pouco heróico mas quer apenas aquilo que todos queremos, ou seja, salvar o próprio couro. Ele não tem grandes fidelidades nem aliados, seu único protegido é ele mesmo. Ele é a humanidade, anfitriã escrota (a cena em que Christopher, um camarão, adentra o subsolo da MNU mostra bem isso) que só faz conceções e alianças quando lhe convém ou beneficia. Talvez seja exatamente esse caráter tão detestávelmente humano de Wikus que obriga a existência de vilões tão óbvios como seu sogro e o comandante de campo das tropas da MNU. Se estes não existissem, provavelmente detestaríamos fortemente o protagonista, que sem choro nem vela nos joga na cara exatamente aquilo que somos: na hora do pega-pra-capar, muito pouco autruístas pois, se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.

Mas havia alguma coisa em "D-9" que me incomodava. A transformação de Wikus van der Merwe me parecia inusitada demais. Dentro da realidade da trama, um pouco descabida até (e se um camarão entrasse em contato com o líquido, o que lhe aconteceria?). Confesso, fui dormir com esse "barulho" na cabeça. Daí percebi que, se esse detalhe não foi intencional, então era mais um paralelo que cabia ser feito pelo espectador: há uma brincadeira, uma relação (que agora me parece óbvia) entre Wikus van der Merwe e Gregor Samsa. Não sabe quem é? Oras, o personagem principal de "A Metamorfose", clássico do realismo fantástico escrito por Franz Kafka. Assim como Samsa, Wikus sofre uma metamorfose absurda (que é menos absurda por conta do contexto geral da obra, mas que mesmo em seu meio não pode ser considerada normal), mas só encontra ao seu redor pessoas pouco interessadas em ajudá-lo ou reverter seu estado: todos que encontra, de amigos a antigos parceiros, querem apenas lucrar com sua condição. Se Kafka fala do abandono do sujeito, Blomkamp recorre ao mesmo recurso (a mutação insetóide) para comentar esse abandono pelo viés da raça, da diferença quase banal (para nós humanos. No filme, com os aliens, essa diferença é superlativada e a gente quase concorda com ela dizendo: "Ah! São só aliens!").

Enfim, para quem quer uma boa ficção científica (que não precisa ter necessariamente uma dúzia de gadgets modernosas e inúteis), "Distrito 9" é realmente um prato cheio. Recomendadíssimo!

Quatro Oinc's! com louvor!

1 comentários:

Ed Pontes disse...

É sem dúvidas um tremendo filme. Eu já o tinha assistido. Faz um tempinho até. Já até resenhei no Bueiro Fétido (...) alguns meses atrás. Pra quem curte filme de ficção bem traçado, e não se importa com alguns clichês típicos (normal nesse caso), esse é o filme.
Muito bom, doutor Lucas.
Abração e manda mais, meu velho.
Sucessos!