Onti,como se diz aqui na Terrinha do Pão de queijo, a
DC Entertainment anunciou os ocupantes de seus cargos. Não preciso nem dizer a relevância dessa informação, né? Mas se você não manja de
Ingrish quebro o galho e traduzo o mais importante: Dan Didio deixa de ser editor executivo da DC para, junto com Jim Lee, assumir o cargo de
Publisher. É basicamente o cargo de diretor (de quadrinhos) que era do Paul Levitz até o ano passado (Diane Nelson continua sendo a diretora da DC Entertainment). Bem, ainda que o nome de Jim Lee num cargo executivo cause algum estranhamento a princípio, é só a princípio mesmo: o olhos puxados foi o criador da Wildstorm nos seus tempos de Image, tirou-a de lá no momento certo e, no momento mais certo ainda (pós-Authority) teve o lampejo de vender sua editora pra DC e ainda manter o controle sobre ela. Ou seja: eu não gosto da arte do Jim Lee, mas tenho de tirar o chapéu pro lado administrador do sujeito de zóio puxado.
Mas as notícias não ficaram por aí, não senhor! Pra completar a coisa, Diane Nelson indicou Geoff Johns como diretor geral de criação e Richard Donner para a área de finanças e marketing.
Sim, senhoras e senhores, Geoff Johns, o cara que vem ganhando cada vez mais espaço na DC Comics, roteirizando um número cada vez maior de títulos, passa a ser "o homem" por trás das publicações da editora. Basicamente, ele gerenciará tudo o que a DC vai publicar, dando um carimbo de
imprimatur pra tudo o que a editora for colocar nas bancas. Em outras palavras, Johns agora tem poder pra dedéu!

Mas eu dei título ao post falando de medo, né? Pois então: meu medo está justamente nos novos poderes do Sr. Geoff Johns. Veja bem, eu não sou um daqueles críticos ferrenhos ao trabalho do roteirista. Por exemplo, acho que ele vem desenvolvendo um trabalho realmente excelente na Sociedade da Justiça (e conseguiu, inclusive, inserir a melhor HQ de super heróis de todos os tempos - "Reino do Amanhã" - de maneira respeitosa e agradável na cronologia), mas no geral vejo-o como um roteirista médio: consegue escrever longas séries com uma boa qualidade, mas ao custo de nunca escrever algo realmente genial. Em outras palavras, a carreira dele não tem nenhum momento muito baixo porque também ele não arrisca grandes saltos.
Por um lado a escolha dele para o cargo tem uma grande vantagem que é a seguinte: atualmente a DC tem dois roteiristas com um conhecimento absurdo da cronologia da editora, o próprio Geoff Johns e Grant Morrison, o irlandês maluco. Se tomamos o cargo novo de Johns como sendo mais ou menos o daquele nerd que Dan Slott pôs para trabalhar na firma de advogados da Mulher Hulk quando passou pelo título da verdona (ou seja, alguém que conhece a cronologia com o objetivo claro de dizer o que pode ser feito e o que não pode), qualquer um dos dois (Johns ou Morrison) serviria, e Johns talvez leve mais vantagem justamente por não ser dado a surpresas como o careca.

Agora, se o cargo também traz em si uma ocupação de definir destinos do universo da editora, a escolha do rapazote já me preocupa. Primeiro, porque Johns é declaramente um fã da Era de Prata dos comics. Seu novo cargo executivo então, pode tornar institucionalizada uma prática que, até o momento, era pessoal, que seja, justamente colocar na baila conceitos da Era de Prata. Veja bem, foi Johns o responsável pelo (péssimo) retorno de Hal Jordan (péssimo? Sim! A mini, além de retroceder a evolução do personagem, ainda desumanizou-o: Jordan não enlouqueceu porque viveu um trauma real e humano, mas sim porque um oxiúrus alienígena o corrompeu e, uma vez livre desse verme, voltou a ser incorruptível e um modelo perfeito de conduta), foi também o responsável pelo retorno (completamente desnecessário, afirmo sem ler) de Barry Allen como Flash e mais, é dele também o conceito dos anéis multicoloridos que, na minha opinião, são de uma puerilidade asquerosa.
Isso se deixamos de lado outras mudanças nesse sentido anacrônico que a DC já vinha sofrendo, nas mãos de outros autores, como por exemplo a volta da Supergirl Kara Zor-El; Lex Luthor novamente colocado em Smallville quando de sua infância; Kripto, o supercão; as kriptonitas multicoloridas; o maniqueísmo bobo, e totalmente anti-contemporâneo, que extirpa qualquer ambigüidade moral dos personagens, qualquer humanidade.
O problema, a meu ver, é que, sob a batuta de Geoff Johns, a cronologia da editora até caminha, mas a passos lentos e desconsiderando trinta anos de histórias. Em seus roteiros, Johns dá seqüência direta aos fatos ocorridos nos anos 70, utilizando a produção dos 80, 90 e 2000 apenas como acessório, justificativa (Hal Jordan ficou com as têmporas grisalhas - anos 70 - porque um alien malfado - Parallax, anos 90 - se apossou dele). A retomada dos antigos conceitos por Johns traz uma marca pesada e indelével de saudosismo, de nostalgia que eu acho particularmente prejudicial e desagradável.
Nesse ponto, o mesmo cargo nas mãos de um Grant Morrison da vida me alegraria mais. Apesar de às vezes se mostrar ainda mais apegado à cronologia do que seu parceiro americano, Morrison tem a seu favor o fato de ser mais explorador e, sim senhores! mais inventivo, muito mais. É como se os dois fossem atores a quem se deu o papel de encarnar Superman no cinema: Johns é aquele sujeito que pontuará sua interpretação para ficar parecida com a clássica, imortalizada por Christopher Reeve. No outro córner, Morrison tem pinta de que pegaria tudo o que sabe de Reeves e usaria do seu jeito, a seu favor. Agora, me diz: quem parece mais com Brandon Routh? Entende onde quero chegar?
Enfim, a verdade é que o futuro só surpresas nos reserva. Eu realmente tenho esperanças no novo espaço que Geoff Johns ocupará na DC Entertainment, pode ser que o conhecimento e respeito que ele tem pelo material da editora ajudem a organizar a zona que ela tem se tornado (vide o caso "A morte dos novos deuses" Vs "Crise Final"). E que seus toque de Midas, que a tudo deixa prateado, se mantenha longe de meus personagens favoritos...